CONTOS DA AMAZÔNIA ANTIGA: UM NAUFRÁGIO QUE RESULTOU EM UM RELATO DE APARIÇÃO MISTERIOSA E MILAGRE ATRIBUÍDO A UM SANTO CATÓLICO
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Na ilustração à esquerda, está
uma representação da canoa transportando a família de Bernardo Ferreira; e à
direita está uma imagem de São Francisco, frade nascido na cidade de Assis, na
Itália, durante a Idade Média.
Nas primeiras décadas do século XX existia na margem do rio Massangana um seringal chamado "São Luiz”, que era de propriedade dos sócios Erasmo Castro e Francisco Florindo de Castro. O rio Massangana é um afluente do rio Jamarí que na época ficava situado próximo da divisa dos Estados do Amazonas e Mato Grosso, e hoje o local faz parte do Estado de Rondônia.
Pois bem, ali em São Luiz
trabalhava o maranhense Bernardo Ferreira das Neves que também residia no dito
seringal junto com sua esposa Isabel Maria das Neves, e mais 4 filhos menores:
José, Raimundo, Maria de Nazaré e a caçula Francisca Ferreira das Neves, de
apenas 4 anos de idade.
Em abril de 1920 o seringal foi
vendido para outras pessoas. Sendo assim agora o ex-proprietário, Sr. Erasmo Castro,
resolveu sair do local que seria ocupado pelos novos donos onde ele colocou
todos os seus utensílios domésticos e de trabalho num batelão, fazendo assim a
sua mudança para outro local. Bernardo, como empregado do seringal, também
seguiria seu patrão para trabalhar com ele em outra propriedade. O maranhense
embarcou numa canoa junto com sua família levando também seus utensílios de mudança.
O batelão do Sr. Erasmo partiu navegando de baixada rumo à Cachoeira do Samuel,
sendo ele seguidos pela canoa de Bernardo com sua esposa e filhos.
NAUFRÁGIO E DESAPARECIMENTO DA
FAMÍLIA
A viagem corria na normalidade,
sem o menor incidente. Porém à certa altura, já estando o batelão distante da
canoa de Bernardo, o Sr. Erasmo notou que vários objetos de uso doméstico
flutuavam descendo o rio pela força da correnteza das águas barrentas.
Assustado com aquilo, o homem teve logo o pressentimento de que a canoa de seu
empregado poderia ter naufragado. Mas, sem ter certeza absoluta e na
impossibilidade de voltar, o seringalista prosseguiu na viagem de seu batelão
até a localidade de Santa Rosa.
Chegando em Santa Rosa, o Sr. Erasmo
pernoitou no lugar aguardando a chegada de Bernardo e sua família. Mas a canoa
onde eles vinham não deu sinal de vida.
No dia seguinte o Sr. Erasmo
resolveu mandar um trabalhador seu ir de canoa subir o rio em busca da família,
enquanto o próprio Erasmo, junto com demais empregados seus, seguiram por terra
por um varadouro que passava pela margem do rio Massangana, sendo que assim,
indo homens pelo rio e por terra, havia mais probabilidade de encontrar a
família desaparecida.
CRIANÇA É ENCONTRADA COM VIDA
SOZINHA EM UM IGAPÓ
No meio da viagem de Erasmo e
seus homens, eis que eles se aproximaram de um igapó que recortava o rio Massangana.
Foi quando ouviram o barulho de uma voz abafada que vinha daquele recanto. Os
homens então seguiram rumo de onde vinha a voz, chegando então na borda do
igapó onde se depararam, assustados, com uma cena inesperada: a menor Francisca,
filha de Bernardo, estava abraçada num tronco de madeira que estava quase
submerso nas águas e ela conversava tranquilamente, como se tivesse alguém a
dialogar com ela. A criança estava com as roupas suja e rasgada, mas não
deixava transparecer no seu semblante nenhum sinal de abatimento físico ou
medo.
Vendo-a naquela dolorosa situação,
Erasmo se aproximou dela e perguntou da criança o que havia acontecido.
Francisca então respondeu: -"A mamãe ficou lá no rio e eu estava falando
com um velho ".
O Sr. Erasmo achou estranho ela
dizer que estava falando com outra pessoa, pois ali era um local isolado que
não era habitado por nenhum ser humano. O homem então tomou a criança nos
braços e a vestiu com sua camisa de meia.
FAMÍLIA É LOCALIZADA - DOIS
FILHOS DESAPARECIDOS NAS ÁGUAS
Na sequência Erasmo e seus homens
continuaram andando em busca do restante da família. Mais adiante, já na margem
do rio Massangana, o Sr. Erasmo embarcou numa canoa junto com a menor Francisca
e dois seringueiros que o auxiliavam. A canoa se dirigiu para o meio do rio,
indo ela atracar, mais acima, num trecho remoto do rio onde enfim encontraram Bernardo,
sua mulher e sua filha Maria de Nazaré, de doze anos. A família se encontrava
isolada num barranco em deplorável estado e com as vestes rasgadas.
Os homens então foram em socorro
da família perdida e logo o Sr. Erasmo perguntou a Bernardo o que tinha
acontecido de fato. Bernardo, ainda confuso e fraco, contou que quando eles
navegavam já próximo à Santa Rosa, ao dobrarem uma curva, tiveram sua canoa
alagada pelo banzeiro e força da correnteza, desaparecendo a canoa e seus
filhos José, Raimundo e Francisca, conseguindo ele salvar sua esposa Izabel e
sua filha Maria de Nazaré onde nadaram até chegar na margem.
Mas logo o Sr. Erasmo resolveu
acalmar o trabalhador pai de família pois que sua filha Francisca estava salva
e se encontrava ali na canoa, dizendo para o homem como ele havia encontrado a
criança no igapó. No momento em que conversavam sobre o ocorrido, os dois
homens eram interrompidos várias vezes pela criança que dizia a seu pai o
seguinte: -"Papai, eu falei com um velho no igapó que dizia para eu não
ter medo que viriam me salvar".
Emocionados, Bernardo e sua
mulher abraçavam sua filha agradecendo aos céus por ela não ter também morrido.
Sendo assim, os pais embarcaram
na canoa com Francisca, sendo eles levados por Erasmo e seus homens com destino
à Cachoeira do Samuel. Mas antes fizeram uma procura por várias áreas do rio
onde se deu o naufrágio, visando encontrar os outros dois filhos desaparecidos
de Bernardo. Mas, infelizmente, nada encontraram.
Seguiram então rumo à Cachoeira
onde ali Bernardo e sua família ficaram hospedados na casa do coronel Henrique Castro.
Mas sempre pairava a dúvida nos pais de Francisca para saber quem era, afinal,
o misterioso velho que a menina tanto falava e que lhe fez companhia até a
chegada do salvamento.
CRIANÇA SOBREVIVENTE RECONHECE
SANTO DE UM QUADRO,SÃO FRANCISCO,COMO A PESSOA QUE LHE FEZ COMPANHIA
Meses depois, o maranhense e sua
família estavam visitando a família do coronel Moisés Marinho, que morava na
fazenda Bela Vista, na margem da Cachoeira. Bernardo, sua mulher e filha
ficaram na sala do barracão central conversando com várias pessoas sobre o
naufrágio e o desaparecimento de seus dois filhos.
Num dado momento da conversa, a
menor Francisca viu na parede da sala um quadro com a imagem de São Francisco
das Chagas, a menor então virou-se para sua mãe e, apontando com o dedo
indicador para o quadro, disse o seguinte: "-Olha mamãe, lá está o velho
que ficou conversando comigo no igapó e está com a mesma roupa".
Houve, por isso, um breve momento
de estupefação entre todos ali presentes, tendo Bernardo lembrado que o único
objeto que se salvou junto com sua filha durante o naufrágio foi uma medalha de
São Francisco que ela agora trazia no pescoço. Além disso, a própria menor não
sabia explicar como salvou-se do naufrágio e como conseguiu chegar ao igapó que
ficava algumas horas de distância do local do desastre fluvial.
Para as pessoas daquele local,
muito religiosas, só havia uma explicação: teria sido um milagre de São
Francisco das Chagas que protegeu a criança até a chegada do socorro.
Em homenagem a esse fato, o
povoado de Santa Rosa teve uma rua batizada com o nome do santo.
FONTES: Jornal do Commercio
(relato de Joaquim Gondim).

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