JOÃO GRETINHA: UM DISCÍPULO DE LAMPIÃO QUE ATERRORIZOU AS MATAS DO ACRE NA DÉCADA DE 1930
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Na foto maior, à esquerda, se tem uma representação de João Gretinha, armado e com roupas da época. Já na imagem menor, acima à direita, sem tem a bandeira do Acre (local onde o personagem fez suas façanhas criminosas), e abaixo, à direita, a notícia de 1932 estampada no jornal "A Reforma”, de Tarauacá, anunciando o prêmio prometido pelo governo pela captura de João Gretinha.
Durante os anos iniciais da década de 1930 entrou em ação no então Território do Acre um famoso delinquente que espalhou medo entre a população da área em que atuava e chegou a ter a cabeça à prêmio pelo governo do Território, se tornando um dos mais procurados e perigosos indivíduos de sua época no Norte do Brasil: seu nome era "João Gretinha".
Seus feitos foram comparados pela
população local e imprensa como idênticas às de Lampião, que no mesmo período
aterrorizava com seus cangaceiros o Nordeste do Brasil. Aliás muitos viam
Gretinha como um legítimo praticante do cangaceirismo na floresta amazônica
acreana, devido suas ações, fugas, audácia e assassinatos, além de ter sido um
dos homens mais temidos da região.
GRETINHA SENTE-SE ATRAÍDO POR
UMA MOÇA E PLANEJA FICAR COM ELA
No distante ano de 1930 existia
no Acre uma estrada (ramal) que ligava a cidade de Seabra (atual Tarauacá) até
a cidade de Feijó, que era chamada de estrada Agnelo de Souza.
Ali na margem do igarapé
Esperança, na dita estrada e precisamente no quilômetro 14, vivia uma família
de cearenses composta pelo velho João Alves Corrêa, sua esposa Izabel Alves
Corrêa e seus três filhos: Francisca (chamada de Nenê), a filha mais velha;
Maria Alves Corrêa, de 15 anos; e Antônio, de 8 anos.
O velho João era um pacato
agricultor que sustentava sua família com o produto de sua lavoura, sempre
sendo ajudado no trabalho árduo por sua mulher e filhos.
Mas havia ali por perto a
presença constante de um ex-praça da polícia chamado João Pereira Lima, que
também era do Ceará, e que era conhecido pela alcunha de "João
Gretinha". Há tempos que João Gretinha tinha fama de desordeiro, desde a
época em que ainda era soldado do destacamento policial de Tarauacá.
Gretinha costumava fazer caçadas
pelas proximidades da casa da família de João Alves e, vez ou outra, após fazer
amizade com o velho João, adentrava a residência da família para tomar um café.
E foi assim que Gretinha conheceu
a filha do casal, a jovem Maria, logo se apaixonando pela mocinha e tomando a
decisão de ter ela um dia só para ele a qualquer custo.
Pensando nisso, Gretinha pôs seu
plano em prática para arrebatar a jovem em definitivo do seio de sua família e
se tornar sua companheira. Pela noite do dia 6 de abril de 1930 ele dormiu na
casa de seu pai, que ficava no subúrbio de Seabra, e na manhã do dia 7 de abril
se dirigiu armado de rifle para a casa de João Alves, não o encontrando ali e
nem sua mulher e seus filhos pois o velho João estava naquele momento
trabalhando na limpeza do ramal, cerca de 4 horas de distância de sua casa.
A RENÚNCIA DA MÃE EM ENTREGAR
SUA FILHA,E O ASSASSINATO COVARDE DELA POR GRETINHA - A FUGA DO HOMICIDA COM A
MOÇA
Gretinha então tinha certeza que
Maria estava com a mãe na roça e para lá se dirigiu. Chegando ele no roçado ali
estava dona Izabel com sua filha Maria e mais Nenê e Antônio trabalhando. João
Gretinha se dirigiu à Izabel e disse a ela que queria casar com Maria. Mas a
mãe não concordou e se manteve irredutível em sua decisão, dizendo que ela era
muito nova para casar.
O ódio então dominou o semblante
de Gretinha que, decido a eliminar qualquer empecilho que atrapalhasse seu objetivo,
respondeu à mãe de sua amada com 4 tiros certeiros que derrubou ao solo o corpo
de Izabel que morreu na hora.
Os filhos Nenê e Antônio,
horrorizados com a cena que presenciaram da morte de sua mãe, fugiram desesperados
para dentro da mata, sumindo. Em seguida João Gretinha ameaça também matar sua
pretendente Maria se ela não fugisse com ele, carregando o homem sua intitulada
paixão e tomando eles rumo ignorado pela floresta adentro com o casal dormindo
na noite daquele dia num tapirí.
A filha Nenê, passou a noite
escondida entre as árvores, só saindo no dia seguinte,8 de abril, indo ela para
a casa mais próxima que pertencia ao Sr. Eufrosino Silva, que morava nas
imediações do quilômetro 9.Chegando ali, ela relatou o triste acontecido.
Já o outro filho, Antônio, que
também se refugiou na mata, assim que saiu do esconderijo foi ao encontro do
corpo de sua mãe onde passou dois dias e duas noites velando e vigiando o
cadáver de Izabel, para que não servisse de pasto para os urubus ou alguma onça,
enquanto aguardava a chegada de alguém.
Enfim chegava um conhecido na
casa da família, encontrando o corpo de Izabel e seu filho que disse a ele como
tudo aconteceu e o autor do crime. Sendo assim o homem se dirigiu à Seabra
comunicando o fato à polícia.
NOTÍCIA DO ASSASSINATO DE
IZABEL CHEGA À CIDADE DE SEABRA - REVOLTA E TRISTEZA - POLICIAIS SAEM NA
PERSEGUIÇÃO AO CRIMINOSO
A notícia do assassinato covarde
e de quem foi o autor logo se espalhou por toda a cidade de Seabra e adjacências,
chocando a todos assim como muitos se comoveram com a atitude do menor Antônio
que ficou durante dois dias sozinho vagando entre sua casa e o corpo da mãe.
As autoridades de Seabra, cientes
agora do crime perpetrado pelo delinquente João Gretinha, trataram logo de
entrar em ação. As forças policial e judiciária tomaram imediatas providências
para prender o assassino, partindo na mesma noite do dia em que a notícia do
crime chegou uma diligência da polícia em busca do criminoso.
No dia seguinte, ela manhã,
seguiu para o local do crime o Sr. Antônio Teófilo Lessa, delegado de polícia,
e o Dr. Leôncio José Rodrigues, médico legista que, acompanhados do Sr. Irineu Catão,
fez o corpo de delito em Izabel, dando-lhe sepultura.
O marido da vítima e pai da
garota raptada, João Alves, foi intimado pelo oficial de justiça a comparecer
em audiência, sendo ele indagado pelo juiz se conhecia e sabia da intenção do
assassino para com sua filha, respondendo o velho que conhecia Gretinha há uns
dois anos e que nunca tinha desconfiado do desejo que ele nutria por Maria.
No dia 11 de abril de 1930 seguiu
uma segunda diligência da polícia para auxiliar a primeira na caça a Gretinha, pois
ainda não se sabia seu paradeiro junto com Maria. A população de Seabra, revoltada,
aguardava ansiosa o regresso das duas diligências trazendo o assassino e raptor
da adolescente.
Porém Gretinha era bom caçador e
profundo conhecedor das matas das imediações, o que lhe dava vantagem e
dificultava sua localização perante os policiais. Já na floresta ele construiu
uma choupana de palha e madeira onde ali ficava escondido e morando com Maria.
Quando pressentia o perigo de alguém a lhe descobrir, abandonava o lugar em que
estava e se fixava em outro.
No início de maio de 1930
retornavam à Seabra as duas diligências da polícia que foram no encalço de
Gretinha, sem resultado positivo pois não encontraram notícias de seu paradeiro
ou vestígios dele e de sua companheira.
O alerta sobre o crime e a
possível presença de Gretinha em outros locais foi dado também nos municípios
vizinhos para que as autoridades dali fizessem sua captura assim que fosse
localizado.
Mas com o tempo começaram a
surgir vários indícios da possível presença de Gretinha pelas redondezas de
alguns seringais, pois rifles de seringueiros desapareciam misteriosamente,
assim como seringueiros que voltavam do trabalho que, ao adentrar em suas barracas,
encontravam suas panelas vazias sem comida. Logo a desconfiança disso levava
muitos a afirmar que o autor dos desaparecimentos era o temível João Gretinha
que podia estar escondido ali próximo.
Gretinha era de cor branca, com
cabelos castanhos escuros, barba e bigode raspado, dentes estragados, olhos
verdes, solteiro, com 1,65 metros de altura e nascido no ano de 1906,ou seja,
quando praticou o crime tinha 24 anos de idade.
A LOCALIZAÇÃO E PRISÃO DE JOÃO
GRETINHA - MARIA FICA NUMA CASA DE FAMÍLIA ONDE MORRE DE DOENÇA
Mas um dia o juiz de Direito de
Tarauacá recebeu uma informação dizendo que Gretinha estava num seringal
chamado "Santos DuMont”, localizado no Baixo Juruá, Município de Carauarí,
no Estado do Amazonas, pois ele e Maria tinham chegado ali pedindo trabalho.
Foi então mandado o major da polícia João Manoel de Azevedo Maia, acompanhado
de dois praças, para o lugar indicado em terras amazonense e, chegando lá, os
policiais reconheceram que se tratava mesmo do procurado homicida e de Maria,
sendo ele detido e levado preso de volta para o Acre a bordo de um navio a
vapor.
No dia 8 de fevereiro de
1931chegava no porto da cidade de Seabra a embarcação com os policiais e os
dois prisioneiros, fato que parou a cidade com todos indo ao porto acompanhar o
desembarque do famoso assassino e sua companheira.
João Gretinha desembarcava na
cidade escoltado pelos policiais e acompanhado de autoridades. Estando as
janelas das casas apinhadas de gente, seguiu ele algemado pela principal rua da
cidade indo adiante do cortejo, sendo que Gretinha encarava a população com um
sorriso cínico. Mas atrás, apoiada no braço de um oficial de justiça, vinha a
pobre Maria, pálida com a cabeça baixa e em adiantado estado de gravidez.
Estava Maria doente de malária,
com as pernas inchadas e os pés feridos pelos espinhos devido às longas
caminhadas que fez na mata acompanhando Gretinha. Ela foi recolhida na casa da
família do Dr. Joaquim Copcke onde ficou dentro de um quarto, vivendo solitária.
Quando perguntada sobre o episódio do crime ela chorava e ficava muda.
No dia 2 de março de 1931,no
fórum de Seabra, deu-se o julgamento de João Gretinha que deu entrada no salão
do júri vestido com roupa de pano e descalço. No local estavam o juiz, o promotor,
o escrivão e um grande número de curiosos. Começou então a acusação da primeira
testemunha, Sr. Miguel Pinheiro. Mas de início o criminoso se manteve calado,
porém logo falou procurando culpar Maria Alves Corrêa como sendo sua cúmplice,
contudo ninguém acreditou nele e o depoimento do acusado foi considerado falso.
Dessa maneira Gretinha foi condenado à prisão.
Todavia, apesar dos cuidados
médicos que recebeu do Dr. Leôncio Rodrigues, o estado de saúde de Maria piorou,
tendo ela febres, e se recusando a tomar remédios e se alimentar. A fraqueza se
acentuou mais, culminando com a morte da jovem com seu filho na barriga no dia
3 de março de 1931.
GRETINHA FOGE DA CADEIA E SE
ESCONDE EM UM SERINGAL, ONDE FORMA UM BANDO ARMADO
Quanto à João Gretinha ele foi recolhido à cadeia pública de Seabra. Os meses foram passando e, quase um ano depois de sua prisão, eis que ele conseguiu um serrote escondido e começou a planejar sua fuga. Finalmente, no dia 25 de fevereiro de 1932 às três horas da madrugada, quando caía uma forte chuva, Gretinha aproveitou e serrou as grades de sua cela e fugiu, tomando rumo ignorado.
Na manhã seguinte é que se deu
falta do célebre criminoso. E, para decepção geral, ninguém sabia para onde ele
teria ido dessa vez. Seria necessário recapturá-lo urgentemente pois ele
representava um perigo constante para todos.
Mas em junho de 1932 começou a
circular em Seabra a notícia de que Gretinha estava refugiado no seringal
"Consulta”. Ele foi visto na região daquele seringal acompanhado de mais 4
criminosos, sendo dois foragidos da cadeia de Seabra e dois do Purus. Diziam
que eles formavam um bando armado que atacava pessoas e seringais próximos de
onde estavam.
Realmente Gretinha estava
escondido no seringal Consulta e ali havia um homem chamado José Xenofonte que
hospedou o assassino fugitivo em sua casa após expulsar sua esposa dali durante
uma briga do casal. O próprio Xenofonte acabou se unindo ao bando de João
Gretinha com a intenção de assassinar seu sogro.
Porém Xenofonte foi na localidade
de Novo Porto comprar cem balas do Sr. Raimundo Quirino, com a finalidade de
abastecer as armas do bando. Mas o Sr. Raimundo não vendeu as balas por não
conhecê-lo e por suspeitar de ser um foragido da justiça. Porém Xenofonte não
desistiu e foi até ao seringal Nazaré onde conseguiu comprar as munições.
A polícia, sabendo dessas notícias,
ficou atenta pois com certeza o bando de Gretinha estava agora bem municiado.
Era necessário os policiais primeiro colocarem as mãos em Xenofonte(que era o
mais visto nos lugarejos),para depois ele dizer onde estavam os seus comparsas.
Uma força policial saiu de Seabra
em 20 de junho, comandada pelo cabo Bispo e formada por 8 praças, no encalço de
Gretinha e seu bando no seringal Consulta.
A NOVA FUGA DE GRETINHA E SUA
CAPTURA
Assim que João Gretinha soube da
aproximação dos policiais, acabou fugindo do seringal junto com seu parceiro Xenofonte.
Um homem negro chamado Joaquim de Oliveira, que era padrasto de Xenofonte e
morava no mesmo seringal Consulta, foi cúmplice na fuga do bando pois ele sabia
onde Gretinha pernoitava e mantinha amizade com ele.
Ao passarem em fuga pelo seringal
Riachuelo, Gretinha deu um tiro na direção de um homem que cortava lenha no
terreiro de sua barraca. Dizem que o motivo do foragido tentar matar o homem
era ficar com a esposa dele. Mas o delinquente errou o tiro e fugiu pela mata.
Continuando na fuga, João
Gretinha e Xenofonte subiram o rio Envira por terra, sempre com os policiais na
sua perseguição.
Consta que os dois fugitivos
pretendiam regressar pelo rio Juruparí, a fim de encontrarem no Baixo rio
Tarauacá ou Juruá o referido Joaquim de Oliveira, que estava se preparando para
se mudar, descendo de canoa para o Baixo Amazonas. Mas essa retirada não
aconteceu e os dois continuaram no Acre foragidos.
Por volta do meio do ano de 1932
Gretinha estava causando terror aos moradores dos rios Envira e Muru, pois ele
andava refugiado nas matas desses dois rios. O delegado geral do Território
mandou uma força policial ao local para capturar o fugitivo. Notícias vindas da
cidade de Feijó afirmavam que Gretinha sempre esteve nas cercanias do lugar,
não indo ele além do seringal Consulta.
O delegado de polícia da cidade
de Feijó mandou, no dia 9 de junho de 1932,uma diligência para localizar e
prender Gretinha, que estava próximo de Feijó com o intuito de saquear a cidade
com seu bando e assassinar o promotor adjunto da comarca que o havia denunciado.
Sabendo da vinda dos policiais Gretinha novamente fugiu junto com Xenofonte,
agora para o rio Purus. Porém, ele e seu parceiro foram alcançados pelos
policiais e presos entre a Vila Castelo e a cidade de Sena Madureira, em agosto,
no seringal "Porto Rico" no Alto Purus.
O FAMOSO PRISIONEIRO MATA UM
POLICIAL E FOGE NOVAMENTE
Assim que Gretinha foi capturado
ele foi levado pela diligência para a colocação Jutaí, no seringal "Boa Vista”.
Mas no dia 20 de agosto de 1932,quando a diligência policial se preparava para
seguir viagem com os prisioneiros para Feijó, às 6 da manhã, eis que Gretinha
disse que queria fazer suas necessidades, sendo ele levado e acompanhado pelo
soldado Manoel Martins da Silva.
Achando-se na privada, Gretinha
pediu ao soldado Martins que o deixasse arrancar umas raízes para fazer um chá.
O soldado, atendendo ao pedido do criminoso, gritou pedindo para o outro
detido, Xenofonte, trazer uma faca.
Xenofonte trouxe a faca e a
entregou ao soldado que por sua vez a entregou a Gretinha(o que foi um grande
erro).Os três então se dirigiram para o local onde se tiraria as raízes. Ao
chegarem lá, Gretinha ficou de cócoras cavando o chão com a faca e pediu a
Xenofonte que fosse procurar as mesmas raízes junto de umas bananeiras.
Tendo-se retirado Xenofonte, foi
ele depois chamado pelo soldado e na ocasião em que Xenofonte se dirigia ao
encontro do militareis que Gretinha aproveitou a ocasião e avançou com a faca
em punho na direção do soldado, lhe aplicando três facadas e logo o agressor
prisioneiro fugindo e desaparecendo pela floresta. O soldado Manoel Martins foi
socorrido por seus colegas, perdendo muito sangue, vindo a falecer no dia
seguinte e sendo enterrado ali mesmo em Boa Vista.
Com o assassinato do policial,
agora era questão de honra para o governo e para a polícia capturar novamente
Gretinha, vivo ou morto.
O CRIMINOSO CONTINUAVA FUGIDO
- SERINGALISTAS ARMAM TRABALHADORES PARA CAÇÁ-LO,E GRETINHA DEBOCHA DE
POLICIAIS
Em setembro de 1932 o foragido
continuava suas façanhas pelo rio Envira. Foi então que Gretinha saiu do rio
Juruparí e passou para o rio Purus indo rumo a encontrar um famoso grupo de bandoleiros,
mas acabou sendo visto no seringal "Porto Brasil"(que ficava na
margem do Juruparí),em 8 de setembro, local que pertencia ao major Antônio
Urcezino de Castro que logo organizou um grupo armado de 4 empregados seus para
irem na perseguição do facínora e o prender. Os homens de Urcezino ainda
chegaram a ver Gretinha, mas não conseguiram alcançá-lo e o perderam de vista.
Como mencionado, João Gretinha
estava indo à procura do reduto de um bando criminoso que estava acampado na
margem do rio Moaco, afluente do rio Purus, para se unir ao grupo. Seguindo
pelo caminho ele passava por várias barracas de moradores e trabalhadores onde
pedia comida e dormida, dizendo para eles que pretendia adquirir um rifle novo
para, depois, mandar de presente à Satanás as autoridades de Feijó, em especial
o Dr. José Potiguara. Também falava que não tinha medo da polícia e que por
várias vezes havia seguido escondido as patrulhas que o caçavam, para escutar o
que falavam e os planos deles para o capturar.
João Gretinha concluía afirmando
que voltaria do Moaco acompanhado e reforçado com os homens do bando que ali
estava para assim fazer uso de sua faca e declarava, em tom de deboche, que
"os cães do governo (soldados),nada valem".
Continuando seu percurso, Gretinha
passou a andar à noite com um facho de sernambi que iluminava seu caminho, pois
queria o mais rápido possível chegar ao mencionado refúgio dos criminosos no
rio Moaco, no qual ele sabia que o chefe do bando era um sujeito chamado
Francisco Ovídio, que tinha praticado um assassinato no lugar São Francisco, no
rio Envira, tendo fugido vestido de mulher.
Porém um outro seringalista, o
coronel Sabóia, mandou uma escolta armada de civis à procura de Gretinha que
fugiu atravessando um rio assim que os avistou, no lugar "Bom Jardim”,
enquanto a escolta acabou desistindo de o perseguir e voltou da margem do rio.
Gretinha dizia que iria para o
rio Atí, mas alguns achavam que ele poderia estar escondido na casa de sua mãe,
no rio Acaraú.
Em novembro de 1932 o governador
do território do Acre, o interventor Francisco Assis Vasconcellos, mandou
colocar avisos nos principais jornais do Acre dando prêmio em dinheiro para
quem capturasse Gretinha. Mas, apesar dos esforços, nenhuma informação se sabia
dele. O pavor era tanto que estava até afetando a produção de borracha daquela
zona, pois que os seringueiros se recusavam a trabalhar, temendo encontrar
Gretinha na floresta.
NOTÍCIAS DAVAM CONTA QUE O
FORAGIDO SE PASSAVA POR OUTRA PESSOA - SUMIÇO PARA SEMPRE
Todavia em março de 1933 soube-se
que João Gretinha estava andando pelo rio Gregório, com o nome falso de Antônio
Albertino Campos e dizendo ser um tenente da polícia que estava em serviço,
numa comissão do governo. Inclusive ele chegou a participar de banquetes
promovidos por trabalhadores que achavam que ele era de fato uma autoridade
militar.
Depois ele passou para o rio
Acurauá onde ali estava atemorizando a população local, falando abertamente e
sem constrangimento de seus crimes. Foi então mandada outras diligências para
aquele rio, mas não conseguiram o encontrar.
A última informação sobre João
Gretinha aconteceu em setembro de 1934,quando se soube que ele estaria morando
no seringal "Santa Catarina”, no Estado do Amazonas, e que as autoridades
do Acre pediam que fosse dada permissão do governo amazonense para a polícia
acreana o prender naquele lugar.
Os meses e anos foram passando e
não se soube mais notícias de João Gretinha, na verdade ele desapareceu misteriosamente.
Para alguns ele teria sido morto por índios hostis, por algum seringueiro
daquelas paragens ou por um animal selvagem, ou então teria conseguido
novamente sair fugido do Acre, e se instalado em algum estado bem longe onde
ninguém o conhecia.
FONTES : Jornais "A Reforma”, “O município”, “O Acre" ; livros "O rio comanda a vida”, de Leandro Tocantins, e "Sapupema: contos amazônicos”, de José Potiguara.

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